Depois do Dilúvio, no Sintra Museu de Arte Moderna Colecção Berardo, mostra obras de Gao Xingjian desde o início dos anos 80 até à actualidade num total de 78 obras plásticas, acrescidas de dois filmes. Recorrendo à técnica da tinta da china sobre papel e tinta da china sobre tela, a subtil diferença entre a abstracção e afiguração molda a exposição, ao mesmo tempo que as reflexões poéticas e estéticas do artista em torno dos sentimentos humanos, constituem o elo de ligação entre as salas que oferecem uma complexa visão intimista da expressão artística de Gao Xingjian. Nas palavras da especialista em arte contemporânea, Montse Badía, “todas as obras de Gao respondem a uma única visão: a do destino do homem, da essência da existência humana”. Segundo o próprio artista, “podemos fugir da tirania política, mas nunca podemos fugir de nós próprios”. Apesar de Gao Xingjian ser conhecido por ter sido galardoado com o Prémio Nobel da Literatura no ano 2000, a sua longa e variada trajectória profissional dá a conhecer diversas facetas: novelista, dramaturgo, ensaísta, realizador de cinema e de teatro mas, sobretudo, artista plástico com um grande reconhecimento internacional. A literatura e a pintura encontram uma serena cumplicidade na figura do artista, funcionando como um complemento indissociável ou uma continuação da outra: “Pinto quando não consigo continuar a escrever. Escrevo quando não consigo continuar a pintar”, resume o artista. Gao Xingjian nasceu em 1940, em Ganzhou, na província chinesa de Jiangxi. Estudou francês e trabalhou como tradutor e posteriormente como guionista no Teatro Popular das Artes de Pequim. Em 1978, fez a sua primeira viagem a França e a Itália, como intérprete de um grupo de escritores chineses, e teve a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos sobre a arte contemporânea Ocidental, após a visita às grandes pinacotecas europeias. Esta experiência levou o artista a reflectir nas possibilidades expressivas da pintura tradicional chinesa, o que determinou o interesse pelo desenvolvimento desta técnica pictórica. Simultaneamente, começou a destacar-se como dramaturgo, mas a estreia da sua obra Arrêt de bus (1983) provocou uma forte censura por parte das autoridades chinesas que limitou a sua liberdade de criação. Em 1987, convidado por diversas instituições alemãs e francesas, abandona a China e instala-se em Paris. Dois anos mais tarde, inspirado nos acontecimentos da Praça de Tiananmen, escreveu a sua obra teatral A Fuga, que lhe custou a proibição total das suas obras na China e a declaração de persona non grata, assim como o estatuto de refugiado político pela República Francesa. Desde então, tem-se destacado como literato e artista plástico, tendo exposto e apresentado as suas obras em importantes centros artísticos internacionais como o Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid. A sua obra integra colecções artísticas tão importantes como as da Fundação Nobel, o Museu de Arte Moderna de Estocolmo ou o Museu de Arte de Taipé, Taiwan e Museu Würth La Rioja. Nas suas pinturas, Gao utiliza a tinta da china, umas vezes sobre pequenas folhas de papel de arroz, outras, sobre telas de grande formato. A técnica da aguarela, oriunda da técnica tradicional chinesa de xieyi (literalmente, “pintura do sentimento” ou “escrita do espírito”) permite-lhe criar ambientes, personagens subtis e intuitivas, que se encontram no limite entre o figurativo e o abstracto. Gao valoriza a tradição chinesa com o seu conhecimento de arte ocidental e introduz a profundidade nas suas obras, assim como a indagação na matéria pictórica. Gao utiliza a tinta chinesa com um traço fluido e ligeiro, cheio de contrastes, explorando as possibilidades expressivas da cor negra e criando tonalidades, luzes, contrastes claro-escuro, texturas e volumes que provêm da própria introspecção do artista. Gao pinta a partir da emoção e as suas formas expressam sensações (A Procura, A Nostalgia , A Ilusão), fenómenos naturais subtis (A Chuva Passageira, A Bruma) ou visões do artista sobre a actualidade (A Alienação, O Fim do Mundo, A Fuga).
Exposição patente ao público de 27 de Junho a 27 de Setembro de 2009
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